Doutrina do Livre Arbítrio

Introdução

Se houve uma doutrina que causou grande discussão e criou barreiras de comunicação entre muitos e grandes pensadores cristãos do passado foi a questão de poder ou não o ser humano determinar o seu próprio destino, exercendo, o que se convencionou chamar em linguagem teológica, o seu livre arbítrio.

Muitos foram os ódios que esta discussão acendeu em virtude, porém, de esforços sinceros tanto de um lado quanto de outro, que buscavam de igual modo manter uma concepção adequada e bíblica a respeito de Deus e de seu amor. Que creram os metodistas a respeito disso?

Textos Bíblicos:

• João 1:14-18: o texto mostra como Jesus, deixando sua glória, fez-se ser humano para revelar o amor de Deus a nós. Ele se esvaziou de seu poder, livremente, sem imposição.

• Romanos 6:1-4: se morremos para o pecado, ele não tem mais domínio sobre nós. Com nova vida em Cristo andamos dirigidos por sua Graça. A vontade de Cristo passa a ser a nossa vontade.

• Efésios 2:8-10 e Tito 3:4-7: Deus nos dá a possibilidade da salvação através de sua Graça: é um dom, um presente que Ele nos oferece. Resta-nos receber esse presente. Nenhum esforço nosso, nem obras, nem sacrifícios, poderiam nos salvar, se Deus nada fizesse.

a – Que Aconteceu ao Ser Humano? Criado para a perfeição, para responder a Deus da maneira mais adequada e imediata, descobre-se o ser humano impotente para poder escolher. A experiência de Paulo, descrita em Rm 7:15 em diante, não lhe foi única. Através dos tempos a mesma frustração tem levado os homens e as mulheres, judeus ou gregos, cristãos ou pagãos, a sentirem a sua incapacidade de afirmar a sua própria vontade: “não faço o que prefiro e sim o que detesto… O querer o bém está em mim, não porém o efetuá-lo.”

A resposta que os hebreus deram a esta situação de decadência foi a criação perfeita do primeiro ser humano, seguida de sua desobediência à vontade de Deus, o que determinou todo um processo de desordem no universo, em contradição entre ele e Deus, entre ele e seu próximo e dentro de si mesmo. Esta dualidade de vontades em choque dentro da personalidade humana, foi caracterizada por Paulo como uma luta que se deve travar entre a carne e o espírito, o princípio decadente e a ansiedade de fazer a vontade de Deus, ambos presentes simultaneamente no ser humano.

O fato é, porém, indiscutível. O ser humano não tem a capacidade real de escolher entre o bem e o mal e de permanecer do lado da virtude. Wesley diz que o ser humano perdeu o seu livre arbítrio natural. Entre os artigos de religião da Igreja da Inglaterra havia um que Wesley incluiu entre os 24 que ele escolheu como padrão doutrinário dos Metodistas, como segue: “A condição do homem, depois da queda de Adão, é tal que ele não pode converter-se e preparar-se pelo seu próprio poder e obras, para a fé e invocação de Deus; portanto não temos forças para fazer obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem a sua graça por Cristo, predispondo-nos para que tenhamos boa vontade e operando em nós quando temos essa boa vontade.”

b – Até Que Ponto Podemos Escolher? É, porém, perfeitamente verificável pela experiência de cada dia que somos capazes de escolher em nossa vida as coisas que desejamos para nós e, ao mesmo tempo rejeitar as que não nos interessam. O senso de escolha não foi extirpado em nós.

Wesley dizia que não somente o ser humano pode escolher o agir ou deixar de agir, como pode também escolher entre duas formas diferentes de ação. “Negar isto, diz Wesley, seria negar a experiência constante de toda experiência humana. Todos sentem que têm um poder inerente de mover esta ou aquela parte de seu corpo, de movimentá-lo ou não, e de movimentá-lo deste ou daquele modo como for do seu agrado. E posso, conforme escolher (e assim todos os que são nascidos de mulher), abrir ou fechar meus olhos, falar ou calar-se, levantar-me ou sentar-me, estender minha mão ou escondê-la, usar qualquer dos meus membros conforme for do seu agrado bem como todo meu corpo”.

Wesley também dizia que o ser humano era livre para escolher nas coisas de natureza indiferente. Nas coisas, porém, que envolviam questões morais sua tendência era sempre a de escolher para o mal. Dizia mesmo que a vontade do ser humano é, por natureza, livre apenas para o mal.

Entretanto, embora tivesse perdido todo o seu livre arbítrio natural em virtude da degeneração da raça pelo pecado, o ser humano, pela misericórdia de Deus, teve em si restaurada, até certo ponto, a capacidade de escolha. É o que poderíamos chamar de LIVRE ARBÍTRIO PELA GRAÇA. A Graça preventiva de Deus, na linguagem de Wesley, atuando sobre o coração do ser humano, recupera-lhe a possibilidade de responder positiva ou negativamente, aos apelos que o próprio Deus lhe faz.

A Graça dá assim ao ser humano a possibilidade de aceitar ou rejeitar esta mesma graça. A decisão, finalmente, é sua. É isto o que diz o Artigo de Religião, que afirma que a Graça de Deus em Cristo é que nos predispõe para que tenhamos a boa vontade de aceitar esta mesma graça. Quando, então, demonstramos esta boa vontade, a graça passa a operar em nós dando-nos então a possibilidade de praticar as boas obras que de outra forma nos seriam impossíveis.

c – Calvinismo e Arminianismo: João Calvino e Tiago Armínio são dois nomes que podem ser postos de pólos opostos, quando consideramos a questão da decisão humana na aceitação ou rejeição da graça de Deus.

Calvino, na Suíça, estabeleceu as linhas tradicionais da teologia reformada, rejeitando o catolicismo romano e demonstrando com argumentos bíblicos irrespondíveis que nehum ser humano tem méritos de si mesmo para alcançar a salvação, que é concedida ao ser humano por Deus em virtude de sua graça gratuita e imerecida, que promove a fé no coração.

Calvino procurou colocar Deus no seu devido lugar, como o Soberano e Supremo Criador de todas as coisas, que dirige e governa o mundo e os homens e mulheres. No desenvolvimento de sua teologia, entretanto, não encontrando explicação para o fato de que muitos seres humanos não aceitam o evangelho e fundamentando-se em certas passagens da Escritura, Calvino chegou à conclusão de que Deus predestinou alguns seres humanos para a salvação, operando em suas almas, por sua graça irresistível e levando-os à fé. A princípio Calvino nada afirmou a respeito dos demais, dos que não creram em Cristo. Posteriormente, porém, o desenvolvimento lógico de sua posição teológica o levou a admitir que Deus havia também predestinado a estes para a perdição.

Tiagi Armínio, que nasceu na Holanda quatro anos antes da morte de Calvino, tornou-se pastor reformado em seu país e seguidor de perto das idéias calvinistas. Quando lhe pediram entretanto, que elaborasse uma tese para defender o calvinismo, especialmente no que diz respeito à predestinação, Armínio parou para pensar e concluiu que esta doutrina era incompatível com o testemunho total da Escritura. Ele concluiu que a exaltação do Criador exigia a liberdade do ser humano. “De suas mãos saíram um ser racional, feito espiritualmente à sua semelhança e não um autômato. Dotara-o com a capacidade de escolha e opção; fê-lo responsável pela consequência da escolha; deu-lhe disposições para conhecer a Deus e gozar a vida eterna… Admitida a predestinação absoluta, o livre arbítrio torna-se impossível, porque a vontade já se acha determinada em seu exercício. qualquer ordem dada a qualquer ser humano, nestas condições, é contra senso.

Confrontado com as duas posições, João Wesley não teve dúvidas: abraçou o arminianismo neste ponto, chegando mesmo a dar à publicação que fazia periodicamente para os metodistas o nome de A Revista Arminiana. “Sem a liberdade, diz Wesley, não pode haver mal nem bem, moralmente falando, virtude ou vício. A virtude não existe, a não ser quando um ser inteligente conhece, ama e escolhe o que é bom; nem existe o vício, a não ser onde um ser conhece, ama e escolhe o mal”.

Qualquer doutrina que nega o livre arbítrio concedido pela graça de Deus já em operação no coração humano, destrói a possibilidade da compreensão humana e faz do homem e da mulher nada mais do que uma simples máquina, mera sombra daquilo que ele e ela na realidade são, trasformando-os em brinquedo de marionetes nas mãos de um tirano. E não é assim que Deus se relaciona conosco.