O sentido do Natal na concepção teológica

É interessante percebermos que o dia 25 de dezembro carrega muito mais um valor simbólico do que concreto para o estabelecimento do nascimento de Jesus. Expresso na simbologia de suas cores marcantes e das luzes inconfundíveis de árvores bem enfeitadas, o Natal torna-se o anúncio do nascimento de um novo tempo de paz, reconhecido por cristãos/ãs e não cristãos/ãs.1

O avanço no conhecimento histórico, associado aos temas bíblicos, permite-nos entender que, embora a data do nascimento de Jesus não seja indicada nos evangelhos e que a escolha do dia 25 de dezembro possa ser uma reação do cristianismo primitivo à festa pagã do deus sol, os relatos evangélicos do Natal são pinturas de uma história feita de “saudade, fé, esperança e amor”.2

1 Sobre os símbolos do Natal confira em: Bispa Marisa de Freitas Ferreira. Um resgate aos símbolos do Natal. Expositor Cristão, ano 130, nº 10, 2016, p. 3.

2 Cf. RAMOS, Luiz Carlos. Nosso Deus recém-nasceu. Disponível em https://www.luizcarlosramos.net/ nosso-deus-recem-nasceu/.

Se para o prólogo do Evangelho de João, Cristo é “a luz do mundo” e nos Evangelhos de Lucas e Mateus os anjos anunciam a chegada do Salvador que trará paz na terra entre os/as homens/mulheres de bem, o nascimento de Jesus tem em especial as marcas da expectativa messiânica de um novo mundo anunciado por Deus. O Natal tem em seu centro os mesmos sinais do espírito de justiça e de reconciliação, promovidos pelo sistema sabático e pelo ano jubileu judaico, pois um tempo de descanso e de libertação nasce juntamente com Cristo.

Os elementos essenciais que marcam o nascimento de Cristo foram transportados dos mesmos ideais característicos de um Deus que ama a justiça e se comporta como justificador daqueles e daquelas que se abrem ao seu chamado e acolhimento.

Senso comum

Percebemos, no entanto, uma diferença significativa entre o Natal ideal e o Natal real. Enquanto o primeiro revela seu verdadeiro sentido, a partir de concepções teológicas estabelecidas há séculos, o segundo sinaliza o modo como a maioria das pessoas vivencia o Natal de forma prática.

Há um bom tempo, observo a agitação que toma conta das pessoas nas ruas, à medida que se aproxima, em dezembro, o tão esperado dia de Natal. Seja em uma grande cidade ou mesmo nos menores vilarejos, a maioria das pessoas parece ser preenchida por uma mistura de sentimentos que envolvem alegria, ansiedade, nervosismo e uma lista de obrigações necessárias para que tudo fique perfeito neste dia de festa.

No entanto, se fizermos uma pesquisa, mesmo que isenta, grande parte dos/as brasileiros/ as não saberá dizer qual o verdadeiro sentido do Natal. Muitos/ as associam esta festa a um tempo oportuno para confraternização entre amigos/as e família, com troca de presentes. Outros/ as continuam na expectativa da chegada do Papai Noel em um trenó mágico, entoando seu famoso e característico riso, alimentando a imaginação de pequenos entusiastas. Outros/as, ainda, expressam um certo descontentamento com a apropriação que o comércio fez desta data, produzindo lucros a partir de uma maçante propaganda em torno do tema.

Fenômenos interessantes parecem acontecer na vida das pessoas neste tempo. Como em um passe de mágica, uma flutuante sensação de alegria e bondade toma conta de um bom número de pessoas que “obrigatoriamente” precisam estar bem, precisam comer a melhor comida, comprar o melhor presente, visitar creches e asilos e, quem sabe, adotar uma criança para passar o Natal com a família.

O sentido do Natal é, então, esvaziado e substituído por sentenças práticas que acontecem no esporádico da vida, sem o sustentamento de uma análise mais consistente a respeito de seu real significado e dos desdobramentos de uma convivência mais justa, equilibrada e amorosa.

Expectativa

O verdadeiro sentido do Natal precisa estar além da superficialidade de nossa prática comum. Deve ser uma busca constante por elementos que sejam duradouros e permanentes na construção das relações humanas. O verdadeiro sentido do Natal deveria acontecer sempre como parte de nosso cotidiano e jamais como uma comemoração anual. Deveria estar fixado em nossa memória e celebrado em nossa vida como elemento intrínseco à nossa fé.

Os desafios que se impõem para aqueles e aquelas que desejam a experiência de um Natal diferente, com sinais de amor, esperança e relações mais justas entre as pessoas, estão na prática de uma fé que busca o Novo mundo de Deus e que se esforça para que ele aconteça de forma permanente, e não somente uma vez a cada ano.

Pr. Jovanir Lage

Diretor do IMJRJR

Publicado originalmente na edição de dezembro de 2018 do Jornal Expositor Cristão impresso.