Os desafios de ser uma Igreja conexional

Um pouco da história bíblica e eclesiástica – Nosso maior exemplo de conexão está na trindade, não há dúvidas quanto à unidade do Pai com o Filho, do Filho com o Pai, do Pai e o Filho com o Espírito Santo e vice-versa. Por ser próprio de Deus andar em conexão, que em tudo que fez e faz projeta a partir de conexões e reconexões. As ações de Deus na Criação revelam que nem Ele faz tudo sozinho nem cria o ser humano para estar sozinho. No projeto de restauração do ser humano que se desconecta dEle e uns/as dos/as outros/as pelo pecado e desobediência, Ele reinicia seu projeto de amor sempre na perspectiva da família, do povo, das tribos, das comunidades. Tanto que rejeitou o projeto de rei que governa sozinho e os/as demais o servem. A partir da família de Abrão, Deus projeta alcançar todas as famílias da terra. A partir do povo de Israel projeta alcançar todas as nações da terra. E a partir de Jesus Cristo conecta Judeus e Gentios para alcançar e abençoar todos os povos, tribos, nações e raças.

O congregacionalismo como movimento religioso surgiu por volta do século XVI com o propósito de purificar e separar-se da denominação oficial e da centralização do governo da Igreja, bem como de não se submeter a seus clérigos. Alguns/as líderes desejavam frisar o governo da Igreja local, em sua individualidade e exclusividade, sem dar satisfações a mais ninguém. Como não encontraram muitos fundamentos bíblicos, a princípio se alinharam com o calvinismo. Depois de tempos de perseguição e intolerância com quem pensava diferente, foram se adequando, porém deixaram um legado congregacional vivido até hoje por várias denominações, tanto históricas quanto novas. Na Nova Inglaterra o congregacionalismo foi fortemente abalado pelos/ as metodistas, que ocupou grande espaço onde eles/as prevaleciam.

Um pouco sobre nossa conexidade cristã e metodista – Nosso sistema conexional afirma que há uma só Igreja, que é o Corpo de Cristo, comprometida com a sinalização do Reino de Deus no mundo, que não se esgota na igreja local, mas se expressa na mutualidade dos dons e serviço do povo chamado metodista, em todo o Brasil e em todo o mundo. Afinal, acreditamos, conforme Efésios 4.4, que “há um só Senhor, uma só fé, um só batismo” e, como metodistas, cremos também que há uma só Igreja. Essa Igreja, como corpo de Cristo, transcende a Igreja Metodista e inclui uma infinidade de outras igrejas cristãs, o que leva à consciência de que somos parte da Igreja de Cristo.

Essa visão de unidade do corpo de Cristo fez com que Wesley levasse os/as metodistas a permanecer integrados/ as na igreja anglicana. O movimento metodista seria uma força de renovação para a própria Igreja da Inglaterra e de transformação da nação. Os grupos não são corpos partidos, mas integrados uns/as aos/às outros/as. A própria forma organizacional do movimento ilustra essa realidade conexional; bands, classes e sociedades, um/a apoiando o/a outro/a, formando uma integração maior.

Nossos documentos dizem que o sistema conexional é característica básica e fundamental para a existência do metodismo, tanto como movimento espiritual quanto como instituição eclesiástica. Temos de estar vigilantes para rejeitar a tentação congregacionalizante e cultivar, com gratidão e alegria, nossa participação efetiva no corpo conectado pela mutualidade, a partir da qual desenvolvemos a nossa vocação histórica, em consonância com a afirmação de John Wesley: “O propósito do povo metodista não é o de criar uma nova seita, mas reformar a nação, particularmente a Igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre toda a terra”.

A Igreja Metodista vê-se em sua natureza como um corpo, um organismo vivo; uma comunidade de fé, adoração e testemunho, que expressa seu amor para fora e para dentro da comunidade, com apoio e serviço, de forma semelhante à comunidade apostólica. É na vivência dessa viva comunidade de Cristo que somos pessoas despertadas, alimentadas, unidas, edificadas, de forma a amar, servir, testificar e crescer.

Nosso grande desafio hoje – Em face das fragilidades institucionais, da grande irresponsabilidade de quem possui um espírito divisionista e divide a igreja por qualquer motivo ou por busca de poder, do espírito exclusivista e egoísta de muitas comunidades de fé, do isolacionismo de crentes com uma espiritualidade apenas dentro dos templos, diante de um rebanho que tem sido formado para seguir cegamente seus/as líderes centralizadores/as, do individualismo social, precisamos com urgência buscar viver a recomendação de Paulo aos Romanos 15.5-6 quando diz que “O Deus que concede perseverança e ânimo dê-lhes um espírito de unidade, segundo Cristo Jesus, para que com um só coração e uma só boca vocês glorifiquem ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Precisamos com urgência redescobrir a importância da mutualidade cristã e missionária. Juntos podemos fazer mais a obra de Deus e avançar mais nos desafios missionários que estão ao nosso redor e até os confins da terra.

Como Igreja viva que somos, podemos em unidade fazer diferença na cidade onde estamos, sendo uma igreja preocupada em ser relevante e que provoca transformação social, espiritual na vida de muitas pessoas. Sem abrir mão da pregação do evangelho, do fazer discípulos/as, precisamos avançar como igreja junto aos/às mais necessitados/as, aos/às enfermos/as, aos que sofrem, plantando novas igrejas, bem como revitalizando comunidades que já não cumprem seu propósito de ser Igreja. Hoje precisamos unir visão, vocação e generosidade na obra de Deus, enfrentando o desafio de não ficar, mas ir ao encontro das multidões que vivem como ovelhas sem pastor/a, com suas aflições e dor.

Que Deus nos una em Jesus Cristo, no poder do Espírito Santo, para deixarmos de dizer ao povo, venha e veja, para uma atitude de Vá e Conte o que Deus tem sido e feito em sua vida.

Bispo Adonias Pereira do Lago
Presidente da 5ª Região Eclesiástica